Depois de dizer “olá!”
para o décimo serviçal e não obter resposta, Jane tratou de evitá-los,
procurando caminhos alternativos de um cômodo para o outro. Estava começando a
achar aquele lugar um tanto sinistro e por mais que andasse, subisse e descesse
escadarias, sua peregrinação terminava sempre em sacadas de pedra com
riquíssimos detalhes, salões de madeira dourada e jardins internos muito
parecidos uns com os outros. O lugar era imenso, no entanto, a jovem cientista
começava a sentir-se ligeiramente claustrofóbica.
Estava tentando dirigir-se para baixo, procurando uma saída.
Atrás de uma porta ornada com o trabalho de linhas trançadas tipicamente
viking, Jane encontrou um quarto pequeno e aconchegante. Era aquecido por uma
lareira instalada bem no centro . Havia muitas peles sobre um estrado dourado e
bonito. O cenário fez com que ela se lembrasse de que não dormia há duas
noites. O efeito do café estava se dissipando e suas pernas doíam. Havia um
cheiro bom de madeira, doce e levemente picante. Ela se lembrava desse aroma
tão convidativo: a casa de sua avó, no Oregon.
Como Thor dissera, ela seria servida com tudo o que
precisasse ali, e precisava com certa urgência de alguma referência do seu
mundo real e confortável que estava em algum lugar fora daquela dimensão
esquisita.
Ela sentou-se na cama e seu corpo desabou sobre a maciez
quase obscena daquela cama viking enorme. Jane soltou um longo gemido de
alívio, mas recompôs-se rapidamente, sentando-se depressa e ficando atenta ao
que acontecia ao redor. Pensando bem, não era uma grande idéia dormir agora
porque nem ao menos tinha certeza de que estava mesmo segura com aquelas
pessoas estranhas e silenciosas deslizando pelos corredores como sombras.
Não podia nem garantir que quem a trouxera aquele lugar
fosse mesmo Thor. O tal Loki tinha seus poderes. Havia visto mais coisas
estranhas nos últimos meses que em toda a sua vida. Não devia ser difícil para
um supervilão mestre em feitiçaria tomar a forma de alguém tão próximo a ele
como o irmão. E ela podia ser a isca para uma armadilha para Loki atacar Thor.
Aquele café todo devia estar provocando paranóia, mas Jane
daria tudo por um pouco mais e sem açúcar. Ou talvez aquela dimensão tivesse
uma gravidade diferente e ela estava se sentindo mais lenta do que de costume.
- Alerta! Abra os olhos, sua estúpida! Thor ou quem quer que
seja vai voltar... não posso simplesmente ficar aqui esperando.
Precisava ela mesma se proteger e tomar as rédeas da situação.
A primeira coisa era encontrar algo parecido com um taco de
baseball. Estranho... aquilo parecia-se muito com o taco de baseball com o qual
brincava quando tinha uns 8 anos.
A noite no 7º Reino era feita de um céu ametista e claro,
raiado de nuvens douradas. Havia uma brisa fresca entrando pelas janelas, que
estavam sendo fechadas pelos serviçais.
Thor passou pela abertura brilhante do portal e foi
violentamente agredido por algo que parecia ser um taco de baseball!
- Quem é você? – Gritou a doutora Foster.
- Ei! Jane! Não! Pare! Por que está me batendo? - Thor já enfrentara muita coisa em sua vida,
mas nunca fora agredido pelas donzelas que salvara. Ele tentou segurar o bastão
e tirá-lo da moça.
- Eu não pedi nenhuma prova !! Como posso saber se você não
é Loki?
- Ai! O que quer que eu faça? Pergunte algo! Pergunte
qualquer coisa!
- Não sei se é boa idéia! Se Loki é um feiticeiro, não seria
difícil para ele... ou para você... descobrir as respostas para minhas
perguntas. E Thor me disse que a sua gente fica observando tudo o que nós
fazemos lá na Terra e eu não me sinto confortável sobre isso!
- Pare de me bater! Olhe, eu tenho o Mjolnjr! Ninguém pode
pegá-lo, somente eu! Vou colocá-lo no chão e você tenta erguê-lo! Verá que é
impossível!
- Isso é meio sem sentido também ! Olhe prá mim! Tenho
metade do seu tamanho! Eu não conseguiria erguer isso nem se fosse um falso
Mjolnjr!
- Pare de bater! – Thor arrancou-lhe o bastão. – Meu Deus,
onde conseguiu isso?
- Ainda não sei quem é você e não quero que se aproxime de
mim.
- Tudo bem, Jane! Eu fico bem quieto e seguro aqui e você
fica bem desarmada e quieta onde está. Posso te dar qualquer prova que quiser.
- Leve-me de volta, então. Thor faria o que eu lhe pedisse.
Mesmo que não concordasse. Se o seu irmão é tão poderoso vai me encontrar aqui
e eu acho que tenho mais chance de me transformar num alvo aqui neste lugar
maluco.
- Você sabe, o meu reino faz parte do que você chama de
“lugar maluco”. – Thor suspirou, ligeiramente indignado.
- Leve-me de volta. Se fizer isso, terá provado quem você
realmente é.
O deus do trovão olhou fixamente para a moça, avaliando seu
semblante determinado.
- Assim seja. – Ele estendeu a mão para ela. – Você é uma
criatura notável, Jane Foster.
Thor a puxou suavemente para junto dele e caminharam pelos corredores, de volta ao
nível superior.
- Parece exausta. Você não dormiu?
- Não consegui. – Alguns servos ainda transitavam pelos
corredores.
- Então, com licença, mylady!
Thor a tomou nos braços, como se levasse uma criança. A moça
quis protestar, mas a situação era agradável demais e ela recostou a cabeça
sobre o ombro dele, extremamente agradecida pela carona.
- Logo estaremos em seu mundo, então, tente descansar um
pouco, se puder.
Jane olhou para um servo que se distanciava. Passaram por
outro e mais um. Jane franziu a testa.
- Engraçado. Todos os serviçais deste castelo tem um rosto
muito parecido.
- Não são pessoas de verdade. São formas-pensamento
alimentadas durante muitos anos até ficarem sólidas.
- Eu estou tão mal que o que você acabou de me dizer está
fazendo sentido.
- Você achou o santuário muito estranho? Pensei que o
acharia belo. Se tivesse que ficar muito tempo aqui, queria que encontrasse
prazer observando as paisagens. – A voz dele tornou-se mais suave.
- As paisagens são lindas. Eu certamente apreciaria mais se
não estivesse presa aqui, se pudesse ir e vir quando quisesse, sozinha, sem
precisar de alguém para abrir e fechar a porta....
Thor olhou para ela e riu.
- Você não aprecia nem o fato de ser eu a abrir e fechar as
portas aqui?
- Não gosto de depender das pessoas. De qualquer pessoa. Não
gosto de ter minha liberdade tolhida.
- Ah! As mulheres mortais, tão rebeldes nestes tempos!
- Não me diga que você acha que lugar de mulher é na frente
de um fogão ou qualquer besteira chauvinista desse tipo?- Jane sentia que sua voz estava mais pastosa e
sonolenta.
- Eu tenho certeza de que eu poderia achar lugares bem
melhores para você do que na frente de um fogão, Jane Foster.
- Só não mando você me colocar no chão agora porque eu tenho
de dizer que é muito bom ser carregada por um super herói quando se está com
sono... hmmm... é como... quando eu era
uma criança...
Jane olhou para os serviçais à distância. Eles não tinham
rostos parecidos: eram os mesmos rostos! E enquanto um deles fechava uma
janela, o céu de ametista se desfazia lá fora, revelando uma parede de pedra.
Quando ela retesou o corpo, Thor se deteve.
- O que foi?
- Não sei! – Jane levou as mãos à cabeça. – Acho que alguma
coisa não vai bem, Thor. Eu não estou certa do que.
- Acalme-se, Jane. Eu estou aqui e nada de mal vai lhe acontecer.
Eu prometo.
A voz dele era um sussurro.
- Você sente este perfume? É como incenso....é como.....
esses serviçais têm o rosto do Sr. Barney.... um senhor simpático da loja de
doces.... tudo aqui parece ter sido tirado da minha cabeça.
- Calma, Jane... você está em outra dimensão. Acho que isso
está afetando sua mente. Tente relaxar. Eu vou tirar você daqui.
- Não. Eu não quero relaxar! O céu lá fora.... eu desenhava
o céu com crayon roxo e a Sra. Margareth tentava me corrigir! Eu sonhava com
torres no mar lendo livros de cavalaria.... Eu fantasiava com você... sozinha
num castelo....
Jane sentiu um arrepio percorrer sua espinha e olhou para o
rosto de Thor, tão perto do seu. O asgaardiano parecia ser a única coisa real
em todo aquele cenário e, no entanto, ela estava muito consciente de que aquela
aparência era uma ilusão.
- Solte-me. Por favor... – a jovem cientista mal conseguia
controlar o coração que disparou por causa do medo.
O sorriso de Thor se espalhou pelo rosto dele de um jeito
incomum.
- Você é muito inteligente, Jane. E tem uma força de vontade
incomum para uma mortal. Não é todo mundo que consegue lutar e vencer uma
ilusão como esta. Eu tive trabalho para controlar a sua mente.
O rosto de Thor oscilou, como se estivesse desfocado,
deformou-se e se transformou na face pálida e delicada do mestre de feitiçaria.
Os olhos azuis dele brilharam. Jane estava nos braços de Loki.
- Coloque-me no chão. – Jane falou a frase com dificuldade.
Aquele Asgaardiano tinha uma reputação bastante ruim.
- Eu não sou o Thor. – Ele continuou sorrindo, irônico. –
Vai ter que me persuadir a fazer o que deseja que eu faça com um pouco mais de
empenho.
Jane desviou o olhar daqueles olhos azuis grandes e
intimidadores que pareciam sondar os recantos mais íntimos da sua alma e com um
esforço ainda maior fez nova súplica, entre dentes, com um misto de vergonha,
raiva e pavor.
- Por favor... coloque-me no chão.
- Não. Eu não sou mesmo o Thor.
Loki simplesmente a soltou. Jane gritou e caiu pesadamente
no chão. Era forrado de almofadas, sim, mas não foi uma experiência agradável,
de qualquer forma.
O susto do gesto inesperado fez com que ela saísse do
torpor. Olhou em volta e viu um vaso de onde saía grandes quantidades de fumaça
perfumada, provavelmente o alucinógeno que a fizera entrar naquele delírio.
Rezou para que aquilo não a fizesse vomitar mais tarde.
- Não pude evitar! Eu
tenho que fazer essas coisas, afinal, acho que agora eu sou o vilão, não é? Não
é o que meu irmão lhe disse?
Jane balançou a cabeça afirmativamente e tratou de não olhar
diretamente para ele. Fecharia os ouvidos se pudesse. Não entendia como havia
acordado naquele lugar.
- Jane, eu fugi de algo pior que a morte, acredite-me. E não
o teria feito sem você. – Loki encheu uma taça com um líquido e agachou-se para
oferecer a ela. Jane olhou para a taça como se ela fosse uma serpente prestes a
atacá-la. – É água e uma pitada de antídoto para toda a Neblina de Sonho que
você respirou. Creia-me, você vai me agradecer amanhã se tomar isso agora. Você
sonhou por horas, Jane. Por isso está se sentindo tão mal. Beba isso.
A jovem sondou rapidamente o local com os olhos.
- Você é uma doutora das leis da física da sua realidade,
Jane. Sem o antídoto, talvez você morra quando estiver dando os primeiros
passos para longe de mim. Sinceramente eu não quero que isso aconteça.
- As lendas dizem que Loki é o deus da trapaça e da mentira.
– Jane não sabia de onde havia tirado coragem para dizer aquilo para o
feiticeiro psicótico.
- As lendas dizem que Thor é um brutamontes beberrão. Você
concorda com isso? Alguns relatos sobre mim são... – ele fez um gesto gracioso
com as mãos, procurando a palavra certa - ...exagerados.
- Nossas lendas dizem que você nunca cessou de fazer mal à
humanidade. E no final dos tempos você se juntou aos monstros para matar os
deuses. Dizem que no fundo de cada lenda reside a verdade.
- Talvez eu faça isso mesmo, quando o Fim chegar, mas não
deve se preocupar com isso agora. Tome o
antídoto, Jane. É sério. E você deve saber o quanto eu fico irritado quando sou
contrariado. – A voz dele não se alterou, sempre manteve-se calma e amável.
Jane obedeceu e tomou o conteúdo da taça. Tinha um gosto bom
e logo espalhou-se pelo seu corpo junto com uma sensação de calor.
- Você vai ficar bem.
- Thor virá atrás de você. É isso que quer? Montou uma
armadilha para ele? – Jane ainda não falava com ele, continuava olhando para a taça.
- Não quer me olhar nos olhos? Eu não sou a Medusa, querida!
Pode olhar para mim, eu não sou tão feio assim. Algumas donzelas aprovaram o
que viram.
Ele tocou de leve o queixo da moça até que ela o encarasse.
- Você tem magníficos olhos castanhos, sabia?
- Thor nos encontrará.
- Ainda demorará um pouco. Ele não pode nos ver. Meu poder
está nos mantendo ocultos de todos os que poderiam ajudá-lo a achá-la também.
- E por que isso? O que aconteceu de fato? Como me trouxe
aqui?
- Minha nossa... quantos questionamentos. Mas isso me
agrada. Gosto de conversar e faz muito tempo que não tenho uma companhia tão
encantadora, desde que meu pai e meu irmão me condenaram à Ilha do Silêncio.
- Se está tentando fazer com que eu sinta pena de você,
acredite-me, é perda de tempo. Você quase destruiu o meu mundo.
- Não espero nada de você, mortal, a não ser que sirva aos
meus propósitos. Sim, você descobriu um caminho até mim porque eu consegui
fazer com que me encontrasse. No momento em que sua câmera entrou na Ilha do
Silêncio, consegui estabelecer uma conexão mental com você. Você, aliás, ainda
está em seu laboratório. As explosões, o seu carro no deserto, minha queda, o
santuário... nós, aqui, neste momento, nada disso é real.
- Como assim?
- Sonhos, dentro de sonhos, tecidos numa ilusão gigantesca.
Eu estou na Ilha do Silêncio e controlo você, que está no seu laboratório, em
sono profundo. A Ilha é inexpugnável e eu jamais poderia sair de lá. Mas quando
Thor descobrir que a mente da sua amada está presa sob o meu poder... ele virá
até mim.
- Se consegue me controlar com seu poder, porque não
consegue fugir dessa Ilha?
- Não posso fazer qualquer tipo de magia aqui. Por isso me
mandaram para cá. Na Ilha, o poder da minha voz não existe e eu enfraqueço. Mas
eu consegui criar este sonho para ter a
sensação de liberdade mais uma vez... - O seu sorriso ampliou-se.
- Então, porque me fez beber isso? Se tudo é só ilusão?
- Vocês, mortais, não entendem que muitas vezes, as ilusões
criadas pelos deuses são, na verdade pequenas realidades. O que quer que
aconteça aqui, nesta dimensão, reflete no seu corpo físico... e, sim, eu senti
aquela surra de bastão!
Jane começou a sorrir ao se lembrar das pancadas que desferiu
em Loki e imaginou a gargalhada de Thor ao lhe contar a história.
Loki também sorriu e se aproximou um pouco mais da moça, que
recuou, assustada.
- Ah! Mas eu também senti o beijo. – Ele fechou os olhos e
suspirou - E, eu sei, que você também gostou. Penso que Thor rirá menos quando
eu lhe contar esta história.
Enquanto isso, no Novo México.
Nick Fury dava ordens aos seus homens para que baixassem o
helicóptero. O Homem de Ferro chegou naquele minuto.
- O que houve? Onde está a Dra. Foster?
- Nick olhou para uma equipe médica da Shield que saía do
laboratório puxando uma câmara hiperbárica.
- Ela está desacordada há horas, mas sua atividade cerebral
é intensa. Vamos levá-la para a Shield para testes. Bob nos contactou.
- Não! Espera! O que vão fazer com ela? Já checaram os
computadores dela?
- Eles explodiram, Stark. Acho que a Dra. encontrou algo que
não devia.
Um relâmpago atravessou os céus e um desesperado deus do
Trovão aterrissou ao lado da equipe da Shield. Thor ficou olhando para sua
amada.
- Abram isso. – Ele ordenou à equipe, sem tirar os olhos
dela.
- Thor, a moça está sendo atendida, deixe a equipe...
- Ela não está doente! Ela está enfeitiçada! Abram isso!
- Abram a câmara! – gritou Stark. Nenhum dos Vingadores
tinham autoridade sobre a equipe, mas os homens da Shield hesitaram,
considerando se era são ignorar ordens de um deus zangado e de um homem
vestindo uma armadura indestrutível.
Fury cedeu e deu sinal para que a câmara fosse aberta.
Thor retirou a doutora de dentro da câmara com muito cuidado
e voltou-se para Thony.
- Tenho certeza de que Loki está por trás disso. Eu levarei
Jane para Asgaard, para as Casas de Cura. Assim que descobrir o que há com ela,
eu mandarei uma mensagem.
Thor usou o Mjolnir para abrir a passagem para seu mundo e desapareceu.
Thony olhou para o traço brilhante da passagem se fechando e
voltou-se para Fury.
- Às vezes tenho a sensação de que vou ver esse menino com o
irmão num daqueles programas bregas em que a família briga na frente da
Tv.
- Só espero que não destruam o nosso mundo por causa dos
problemas de família deles.
Continua... Fanfic
by Ana Laufeyson
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