Loki estava de olhos fechados e em silêncio.
- Thor está com você em Asgaard agora.
A moça olhava para o horizonte do cenário de faz de conta
que Loki havia montado ao redor deles. Uma bela praia de águas prateadas e uma
luz dourada como num eterno fim de tarde de sábado.
- É muito estranho. Há tanta beleza aqui e ela saiu da sua
cabeça.
- Sim, de fato. Eu sou extraordinário, não é? Que bom que
notou. – Ele sorriu, deliciado.
- O que eu quero dizer é que você sabe o que é a beleza, a
harmonia.... como é capaz de ser tão destrutivo!
- Posso dizer a meu favor que não criei a bomba atômica. Nem
sequer a sugeri. Vocês fizeram a Monalisa, a Catedral de Notre Dame... e
aprenderam a transplantar corações para salvar vidas. Eu não sou o único ser
com certa complexidade de sentimentos.
- Você poderia usar seus poderes para o Bem. Poderia
juntar-se aos Vingadores.
- Meu irmão já preencheu a vaga.
- Sabe, Loki, você parece meio obcecado pelo seu irmão, pelo
que ele faz, pelo que ele “tira” de você. Eu conheço Thor ... um pouco.... e
ele nunca falou de você com ódio. Com preocupação, sim. Ele ama você. – Jane
levantou-se. Estava começando a se sentir um pouco mais confiante. – Vocês
cresceram juntos. Não é possível que não tenha nenhuma lembrança boa da sua
infância e da companhia dele. Vocês lutaram juntos nessas grandes batalhas
épicas da sua gente. Não posso acreditar que não houve pelo menos um momento em
que você apreciou a companhia dele.
Loki abriu os olhos e fitou a moça com curiosidade.
- Talvez.
- Talvez o que?
O olhar dele brilhou.
- Talvez tenha tido algum momento assim.
- Você não se lembra?
- Está louca para ouvir, não é? Acha que pode fazer com que
eu me torne tão bonzinho quanto acha que é o Thor simplesmente me fazendo
lembrar do último natal em família? A propósito: não temos Natal em Asgaard e
espero que isso não diminua o seu entusiasmo pelo nosso mundo.
- Eu gostaria de ouvir a história, sim. – Jane tentava
manter seus pensamentos sob controle. Certamente ele podia ler tudo o que ela
pensava. Deveria haver um modo de descobrir mais sobre Loki sem ele o perceber.
Encontrar seus pontos fracos. Ela precisava detê-lo e salvar Thor.
- Ah, Jane. Eu poderia lhe contar histórias terríveis sobre
nossas guerras. E nossos heróis não pareceriam melhores que os seus piores
vilões. Nenhuma guerra é justa. São necessárias, mas não são boas.
- Não quero ouvir histórias de guerra...
- Oh, eu me esqueci de Fred e Vaughn!
Jane Foster estreitou os olhos para ele.
- Não ouse mexer nessas memórias.
- Os amigos que você perdeu no Irã. Eles transmitiram suas
mortes para você e não pode fazer nada, não é, doutora?
Jane fechou os olhos, mas não adiantou. De repente ela
estava no meio de uma batalha no deserto, com bombas explodindo bem ao seu
lado. Dois rapazes gritavam diante de um celular.
- Jane, Jane, nós vamos morrer! Nós vamos morrer! Eles estão
bombardeando tudo! Isto aqui é insano! Insano! Ninguém vai pará-los, entende??
- Pare! Pare com isso!
- Abra os olhos. Não quer ver seus amigos mais uma vez? É
quase como se eles estivessem vivos.
- Pare com isso, Loki!
- Não pense que pode me manipular no meu próprio jogo, Jane
Foster. Acha que vou revelar meus segredos para você?
Ela continuava com os olhos fechados, mas sentiu os corpos
dos amigos desabando ao seu lado. Fred gritava de dor. Os gritos diminuíram e
viraram um choro quase infantil. Depois disso vieram os gemidos que nunca
paravam. Ela se lembrava que a câmera caíra próxima deles e gravou a agonia de
quase 20 minutos do rapaz, até a sua morte. Eles faziam parte da equipe de um
projeto pacifista no qual ela trabalhava na faculdade. A idéia de fazer
gravações real time no Irã para mostrar que o exército americano não estava
ajudando a pacificar o país foi dela. Foram pegos no meio de um tiroteio entre
extremistas e marines.
- Que prazer você sente me fazendo experimentar isso
novamente?
- Não é prazer. É curiosidade. – Loki ficou em silêncio
alguns minutos, olhando para ela. Então o cenário de caos desapareceu e surgiu
uma grande planície inundada de sol. – Mas você tem razão: foi deselegante de
minha parte. Desnecessário. Para compensar, deixe-me contar a tal história.
Preciso fazer você sorrir, Jane! Você fica linda sorrindo!
Loki abriu os braços indicando a paisagem diante dela. A planície foi se transformando
num terreno de geleiras, sombrio.
- Sabe onde estamos? Esta é a minha terra natal, Jane.
Jottunheim. Não precisamos viajar muito para conhecê-la porque este trecho do
caminho é parecido com o resto. É só isso que verá: gelo e escuridão. Isso diz
tudo sobre mim, não é?
A jovem cientista respirou fundo. A temperatura caiu
repentinamente e sua pele parecia queimar-se ao ser tocada pelo vento gelado.
Loki esticou a mão para ela e a moça foi envolvida por um pesado manto e botas.
- Na primeira batalha que participou, Thor perdeu o martelo
no meio do campo de batalha. Éramos muito jovens, inexperientes e meu irmão
queria mostrar que podia ser um guerreiro melhor do que Odin. Quase fomos
mortos pelos gigantes e tivemos que fugir rapidamente. Quando chegamos ao
acampamento... venha comigo, querida! – Loki estendeu a mão para ele,
cavalheiristicamente – Veja, depois daquelas montanhas fica o acampamento.
Os dois atravessaram uma passagem que os levou direto para
um agrupamento de homens e cavalos que afiavam espadas e corriam para recolher
os mantimentos e prendê-los aos grandes carros puxados por lobos gigantescos.
- Então.... Thor se recusou a partir.... – Loki soltou Janee
deixou de ser o narrador para se tornar um ator daquele teatro onírico que ele
montara. Parecia estar se divertindo muito com aquilo. Ele aproximou-se de
Thor, uma ilusão, que trazia alguns ferimentos no braço. – Thor, precisamos ir
agora! Laufey se aproxima e tem mais homens.
- Não partirei sem meu martelo!
- E o que pensa fazer? Pedir para o gigante devolvê-lo? Não
foi a sua bola que caiu no quintal do tio Olaf! Se voltar virará refém dos
gigantes e criará uma encrenca ainda maior para nosso pai!
- Não! Eu sou filho de Odin! Eu posso derrotar qualquer um!
Loki segurou-o pelo braço.
- Thor, então me deixa ir e negociar. Eu irei sob a bandeira
de paz. Mas irei só.
- Aí o refém será você!
- Não! Eu tenho meus poderes mágicos. Será mais fácil para
mim ir até lá sozinho...
- Isso tudo é minha culpa, Loki. Eu tenho que resolver isso!
-Não. – Loki acenou diante do rosto do irmão e ele caiu em
sono profundo. Thor ainda não conhecia a maioria dos truques que Loki podia
utilizar.
Continua... Ana Laufeyson
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