Jane olhou para aquela montanha de músculos metida no
vestido improvisado.
- Eu não acredito... – ela murmurou para Loki.
Loki olhou para ela
com um sorriso irônico nos lábios. Thor estava com o rosto vermelho, meio
afogado, apertando um espartilho enorme
ao redor de sua cintura.
- Qual era o seu plano? Fazerem os gigantes morrerem de rir?
– a moça mordeu o lábio inferior para não deixar escapar a gargalhada. Thor estava
descabelado e com a face toda borrada de maquiagem. A barba também não ajudava.
- Mato você depois, Loki! – rosnou Thor.
- Guarde sua raiva para os gigantes, meu irmão!
- Isto nunca vai funcionar! – Thor quase tropeçou, pisando
na barra do vestido de lã.
- Claro que funcionará. – Loki moveu sua mão esquerda num movimento de
ilusionista na direção do irmão, mas sem que ele percebesse. Uma neblina
azulada envolveu o guerreiro louro e Jane viu o rapaz se transformar na bela
Freya.
Jane sentiu certa indignação.
- Ele não precisava ter se vestido desse jeito! Você usou
poder para disfarçá-lo.
Loki piscou para ela.
- Eu não acredito.....
- É.... e nós passamos por todos os guardas. Daí eu
perguntei se ele conseguia chamar o
Mjolnjr.
- Não. Eu sinto sua vibração, mas está baixa.
Loki virou-se para Jane:
- Não fazia muito tempo que Thor havia ganho o martelo,
então, ainda não estavam tão sintonizados.
Já estavam diante de Thryn e Jane chegou a esbarrar em um
dos gigantes. A ilusão criada por Loki era capaz de provocar as mesmas
sensações da realidade.
- Língua de Prata, terá você cumprido a sua promessa? Essa é
Freya, de fato? Ou será só bruxaria?
- Ora, meu general, por que não pergunta à própria Freya?
O gigante dirigiu-se ao que ele pensava que fosse a rainha
de Asgaard.
- Então, majestade... preparada para ser levada para nosso
mestre Laufey? Daqui para frente você fará parte do harém do nosso rei e será a
serva de suas esposas!
Thor continuou estático, olhando para o chão próximo ao
trono de Thryn. Estendeu a mão discretamente, mas aos poucos o gesto se tornou
mais tenso e evidente.
- Ela não fala, Loki? O que ela está fazendo? Se isso for um
truque seu... – a um gesto do general, mais guardas se aproximaram, apontando suas
armas para os asgaardianos.
- Ela está nervosa, general. É só uma mulher.... por favor, tenha paciência... – Loki virou-se
para o irmão e sussurrou para ele:
- Já consegue invocar a porcaria do martelo?
- Está longe!!! Preciso chegar mais perto do trono!
Loki imediatamente virou-se para Thryn.
- Oh, grande Thryn! Minha mãe quer demonstrar sua
subserviência a seu reino e ao Mestre Laufey ajoelhando-se aos pés do general !
- Ora.... – Thryn sorriu, irônico – Ela que beije minhas
botas se quiser! Loki, não pense que vocês desfrutarão de boa vida em
Jottunheim como a que tinham em Asgaard!
Para nós, vocês dois não passam de escória.
Thor aproximou-se do trono e jogou-se no chão de gelo, para
espanto de Jane. Thryn franziu a testa e começou a elevar a mão para ordenar
que os guardas atacassem. O comportamento da rainha de Asgaard não inspirava
nenhuma confiança.
Loki virou-se para Jane, com um semblante constrangido.
- Eu devo confessar que foi neste exato momento que eu
percebi que o plano não estava funcionando exatamente como eu havia planejado,
mas isso só porque o Thor não conseguia se entender com seu brinquedo, você percebe?
Então eu meio que perdi o controle da minha magia e Thor ... voltou a ser ele
mesmo.... – Loki encolheu os ombros.
O disfarce de Thor desapareceu e Thryn gritou, surpreso e
furioso. As ações então aconteceram em uma rápida sequencia: Thor deu um soco
no chão congelado e enfiou sua mão gelo adentro e então o Mjolnir empenhou-se
mais em desvencilhar-se de sua sepultura sob o gigante. Quando o martelo subiu
à tona, partiu o trono do general e quase lhe arrancou a cabeça.
Jane gritou e tentou correr para longe da batalha que se
seguiu. Uma força invisível a suspendeu
no ar, deixando-a a salvo. Ela viu Thor e Loki aproximarem-se e lutarem lado a
lado, um protegendo o outro.
- Thor delirava em batalha, como um dos antigos bersekers,
os guerreiros vikings tomados pela loucura de guerra, que não podiam ser
detidos. Ele invocou seus raios e os concentrou
em seus inimigos, destruindo-os. Diga-se de passagem que ele quase
destruiu tudo ao seu redor.
A explosão lançou a mim e a Thryn para o lado de um abismo de
gelo, formado por um antigo rio que
escavou uma grande fenda na geleira. Thryn aproveitou para me atingir com sua
lança... e eu fiquei zonzo. O desgraçado me empurrou para a morte no abismo. O
martelo de Thor atingiu o gigante na cabeça e com o impacto ele se
desequilibrou, passando por mim, tentando me levar junto com ele...
Loki quase revivia o medo que sentiu no passado, sentindo-se
ser arrastado para o seu fim. Jane viu como ele mudou de expressão, tentando se
agarrar nas pedras. Thor atirou-se para a borda do penhasco, agarrando o irmão
pelo braço. Começou a puxá-lo com grande esforço, até conseguir afastá-lo do
perigo.
- Thor estava me carregando de volta para o acampamento. Eu
sentia tremenda dor causada pelo ferimento da lança. Abri os olhos bem a tempo
de ver a aproximação do último gigante. Gritei um aviso ao mesmo tempo que
lancei um feitiço que petrificou o inimigo, mas o guerreiro de Jottunheim
conseguiu jogar sua maça de guerra. Thor virou-se e a arma o atingiu no peito.
Nós dois escorregamos para o precipício e foi a minha vez de estender a mão e segurá-lo.
Loki ficou olhando para o Thor criado por sua magia. Era
tudo tão simples naqueles tempos.
Finalmente Jane viu a batalha terminar e Thor e Loki
sentaram-se na neve olhando para os próprios ferimentos. Começaram a rir e
abraçaram-se, satisfeitos por terem derrotados toda a tropa de Thryn.
Loki desceu Jane para perto deles.
- Isto é insano! – Jane ajoelhou-se ao lado deles. Quando
tentou tocar Thor, ele desapareceu.
- Oh, sim! Nós nos divertíamos.
Jane esticou um pedaço do manto para limpar o ferimento de
Loki mas ele simplesmente passou sua mão sobre ele e o sangue todo sumiu.
- Infelizmente, quando tudo terminou apenas Thor recebeu as
honras. Eu fui visto como o “ajudante” do meu irmão. E ele estava tão cheio de si que não se
apressou em me dar crédito pelas vitórias no campo de batalha.
Jane ficou em silêncio. Sentou-se no chão abraçando os
joelhos.
- Mas estou aqui novamente falando de mim! Quais são as suas
histórias, Jane? Temos tempo ainda, eu acho... até meu irmão convencer meu pai a
enviá-lo até a Ilha do Silêncio ou até o Thor ficar muito desesperado e partir
sem autorização. Entretenha-me, Jane.... Conte-me uma história.
- Não sei se quero ficar brincando com você enquanto Thor
está sendo atraído para uma armadilha....
- Bem, não há muito mais para você fazer aqui além de
aproveitar o momento. Nem pense que pode escapar da minha mente, Jane. Ela é
incrivelmente rápida e bem protegida.
Jane suspirou, cansada.
- Não tenho histórias de batalhas, Loki. Prefiro ficar longe
delas. Tudo o mais que possa ter acontecido comigo entediaria você.
- Oh, não, Jane, você faz mal juízo de mim. Você acha que
sou um desses tipos insensíveis ? Eu vi
as suas memórias: o primeiro livro que aprendeu a ler... a sua alegria ao
conseguir decifrar as palavras. Eu adoro palavras, Jane! Elas são mágicas. Vejo
o quanto você ama conhecimento. – Loki
aproximou-se dela com seus grandes olhos azuis bem abertos, mudou completamente
a expressão sombria para um semblante jovial, alegre e muito atraente. - Sabe
que eu poderia lhe dar todo o conhecimento que existe no mundo. Bastaria você
pedir e eu abriria sua mente para as coisas que estão além da compreensão dos
mortais.
Loki soprou os olhos dela e Jane arrepiou-se. O alento dele
aqueceu seus olhos de um modo incômodo e ela levou as mãos ao rosto.
- O que você fez?
- As fórmulas que você tanto procurava para dar continuidade
aos seus estudos, estão bem à sua frente!
Jane viu aparecer e desaparecer num instante do tempo uma
série de cálculos essenciais para seu projeto. A imagem durou o tempo
suficiente para ela sentir o quão perto chegara das respostas que procurava.
- Não! Traz isso de volta! Traz os cálculos de volta!
Seus olhos voltaram ao normal.
- Você quer? Posso lhe dar as respostas que procura!
Jane respirou fundo, tentando controlar sua ansiedade.
- Eu e você amamos o conhecimento, Jane! A sensação da
descoberta é sempre maravilhosa, não é? Poderia lhe conceder dons que a fariam
a mulher mais poderosa deste e de todos os mundos.
Jane achou por bem afastar-se dele um pouco mais.
- As lendas dizem que nunca é bom aceitar os presentes de
Loki.
- Leu muito a meu respeito, mocinha. Entenda que eu costumo
presentear também as pessoas de quem eu não gosto. – O sorriso dele era
envolvente e absolutamente terno. - Porém.... estamos divagando ! Conta para
mim, Jane, fale sobre o que aconteceu no seu baile da escola! Eu vejo que isso
tem uma marquinha vermelha na sua memória!
- Chega disso, Loki. Não vou entrar nos seus joguinhos.
- Você é tão pouco afeita à mentira que não consegue nem
fingir que não liga para isso.
- O que minhas historinhas humanas podem te interessar? –
Jane agitava os braços e sorria cansada. Queria ir para casa e esquecer aquela
viagem estranha. Aquilo tudo não seria efeito de uma pizza vencida que ela
havia comido em algum jantar?
- Tudo sobre você me interessa. – Ele fixou os olhos azuis
nela e a jovem cientista tentou desviar o rosto, sem sucesso. – Não faz idéia
do quanto me interessa.
- Isso é porque Thor vagamente demonstrou algum interesse em
mim? – estava legitimamente irritada. - Posso te assegurar que não temos nada.
E eu gostaria muito de voltar para minha casa!
- Houve um beijo. E você guarda essa lembrança não na
Memória, mas no seu coração. – Loki ficou sério, tentando dissecar-lhe os
pensamentos com aqueles frios olhos azuis.
- E daí? Nunca haverá
nada entre nós! Thor é um imortal! Eu sou uma garota americana que está louca
prá voltar prá casa e tomar todo um pote de sorvete em absoluta crise de
ansiedade! Não pedi pro seu irmão cair no meu caminho! Eu quero voltar prá
minha casa! Eu não quero fazer parte da briga com seu irmão! Fui bem clara?
Loki sorriu e a irritou mais ainda.
- Pare de sorrir! Eu quero ir prá casa agora! Chega dessa
loucura! Eu não ligo pro seu irmão! Ele me salvou uma vez! Ótimo, legal!
Tivemos uma boa conversa sobre família e responsabilidade e ele se foi!
- Você disse que eu sou obcecado pelo Thor. Você é tão
obcecada por ele quanto eu. Por objetivos distintos, lógico. Jane, todo o seu
trabalho, nos últimos tempos, se resume a vasculhar o céu para achar uma
passagem que a leve a ele.
Jane sacudiu a cabeça.
- Não, não é isso...
- Você vai atrás do que quer, Jane. É o que eu faço também!
- Você mata e destrói tudo para ir atrás dos que quer. Vai me matar também, para destruir seu irmão.
– Jane sentiu faltar-lhe o ar – E eu.... eu não quero morrer.
- Eu quero destrui-lo, sim. – Loki continuava com aquele
olhar terno no rosto. - Mas não quero
matar você. Você me fascina. – Jane assustou-se ao perceber que a voz dele
soava de forma sincera. - Estou começando a descobrir por que você é especial
para ele.
Era difícil deixar de olhar para ele agora porque o rosto de
Loki assumia uma expressão tão adorável e irresistível. Jane fechou os olhos,
mas continuava a ver o rosto pálido e delicado diante dela. E sua voz era como
música.
- Você é tão simples. Tão clara. Repousante, como um pequeno
lago. – Loki chegou mais perto dela. Como um animalzinho mesmerizado diante de
uma serpente, Jane não conseguia se mover. Começou a perceber que os traços do
rosto de Loki, tão diferente das linhas viris de Thor, agradavam-na mais. A
fisionomia do feiticeiro possuía uma força aterrorizante, que se diluía numa
expressão de meiguice. Tentou de novo desviar os olhos e não conseguiu. Loki
estava a poucos centímetros dela e havia uma energia tão grande que a puxava
para ele.
- Acho que vou querer você para mim, de fato.
Jane trouxe à mente a lembrança das explosões e da confusão
que Loki causara enviando o guardião de Asgaard para matar Thor. Com isso ela
retomou o controle sobre sua mente.
- Deixe-me ir, Loki! Não faço parte do seu mundo. Por favor,
deixe que eu vá!
- Não mais. – Um daqueles sorrisos cheios de calor se
esparramou pelo rosto dele e Jane sentiu-se enrubescer sem nem saber ao certo a
razão. Ele afastou-se um pouco.
- Conta uma história para mim, Jane. Conte-me sobre o baile...
Jane respirou fundo, apertando com força as mãos, e começou
a contar a história.
Continua... By Ana Laufeyson
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