Loki acordou por causa da dor nos olhos. Precisava abri-los
porque eles queriam saltar das órbitas. Ardiam como fogo, embora ele sentisse o
ar gelado tocando-os através das pálpebras. Abriu-os aos poucos e assustou-se
porque a princípio só havia escuridão. Teve medo que Karnilla o tivesse cegado
enquanto estivera inconsciente.
Lentamente
acostumou-se ao ambiente e compreendeu que estava na penumbra e conseguia
divisar formas. Os ruídos confusos que chegavam aos seus ouvidos foram se
transformando em uma cantoria monótona.
A medida que subia o volume das vozes, a luminiscência azulada do lugar aumentava e revelava o teto lapidado como um diamante.
Sentia outros pontos do corpo doloridos: pernas, costas, e
sobretudo o peito. Quando sua cabeça parou de latejar e a dor nos olhos
diminuiu, permitindo que raciocinasse, lembrou-se dos livros que estudara e de
alguns duelos que já havia tido com bruxos e monstros: sua magia havia sido
drenada. Quem havia feito aquilo era bem ruim ou tinha muito ódio dele porque
arrancou a força mágica de um modo apressado e brutal, para que ele sofresse.
Sim, agora se lembrava: havia desmaiado no processo. Provavelmente Karnilla tentara extrair seu
poder.
A notícia boa: Karnilla não dominava o ofício e não
conseguiu tirar-lhe muita coisa. Ainda mais que ele já havia deliberadamente
transferido muito da sua essência para outro lugar, por precaução. Não sobrou
muito para a Norne. No momento, porém, sua magia estava bloqueada de alguma
forma.
Sentiu seu corpo ser colocado de pé, contra uma coluna
gelada, tendo os braços puxados para trás. Imediatamente sentiu o gelo correndo
pelas suas mãos e antebraços, prendendo-os à coluna. Seus pés também
cobriram-se de gelo, que subia em camadas, como se estivesse vivo, chegando aos
joelhos. Esta prisão provocaria ferimentos mortais em qualquer asgaardiano, mas
Loki apenas gemeu de raiva, por estar impossibilitado de se mover. Estranho,
porque se estivesse em seu estado normal, ele facilmente se soltaria.
- O grande Mestre da
Magia.... você decaiu, meu caro. Está quase vazio, como um odre velho. –
Karnilla acariciou o rosto de Loki, que permaneceu imóvel, olhando diretamente
para a mulher com seus olhos azuis imensos e frios. – O que fez, Loki? Prá onde
mandou sua magia?
O sorriso mau esticou-se de um lado a outro da face de Loki
feito um gato espreguiçando-se. Ele abriu a boca para falar algo, pareceu
pensar algo e mordeu os lábios, provocante e divertido e ficou em silêncio,
apenas rindo. Karnilla perdeu o semblante amável.
- Você contava com o meu poder para o seu grande ritual, não
é? Que pena. – Ele continuou a encará-la com a expressão de um garotinho
travesso.
Os sacerdotes do templo, menores que os guerreiros, continuavam
cantando mantras em sua língua sibilante.Karnilla fez um gesto indicando seus
ajudantes. - Consegue entendê-los? Eles estão preparando o ambiente para o
sacrifício.
- Da última vez foram brutalmente interrompidos por Odin... Por acaso você tem alguma notícia recente da
minha família adotiva, Karnilla? – perguntou Loki com um sorriso.
- Sim, Odin e Thor estão na Terra do Gelo, mas eles nada
poderão fazer contra minhas defesas. Quando conseguirem passar por eles, você
já terá cumprido seu destino. – Os olhos dela brilhavam, um tanto doentiamente.
- E qual seria esse meu glorioso destino?
- Reconhece este anel?
Loki olhou displicentemente.
- Você se tornou uma ladra? Este anel pertence a Odin.
- Você sabe... as lendas contam que o gigante Ymir criou os
9 mundos e deu origem aos gigantes de gelo. Você devia saber disso porque é a
história da sua família.
- Se quer me matar de tédio, está quase conseguindo. – Loki
suspirou, aborrecido.
- O gigante atacado por Odin e seus irmãos... o sangue de
Ymir formou os oceanos e toda a água dos vários reinos... os ossos, formaram a
Terra.... Ymir está adormecido em cada
um desses elementos e pode ser despertado se ocorrer um grande evento. Loki,
você é um mestiço gigante e asgardiano. Desde o princípio dos tempos isso não
acontecia. Se você morresse no templo, se não tivesse sido salvo por Odin, o
seu sangue nobre teria se derramado na terra de gelo e feito acordar Ymir.
- Isso tudo é lenda. Ymir nunca existiu.
- Você é um mestre em magia e não sabe que toda lenda é
baseada na Verdade? Se eu conseguir realizar um grande evento como o sacrifício
de um mestiço, filho do rei dos gigantes e de uma feiticeira asgaardiana...
alguma coisa deve acontecer quando seu sangue correr pelo solo da terra de
gelo, não é? E esta jóia, feita para Vili, irmão de Odin, me ajudará a
controlar as grandes mudanças que ocorrerão.- Com o anel eu drenarei toda a sua
força e me tornarei a feiticeira mais poderosa dos 9 reinos. – ela estendeu a
mão para Loki, para que ele visse a jóia.
- Duvido muito! Tudo o que sabe fazer é executar truques de
mágico de aldeia. Justamente por isso a rejeitei como aprendiz. Você é
inferior, Karnilla. Não possui nem
imaginação, nem sagacidade suficiente
para lidar com magia...
- Houve uma época que você pensava diferente... – a
mulher sorriu.
- Sim, e me decepcionei muito. Você não estava a minha
altura como aluna. E como amante, deixou muito a desejar...
Karnilla bateu no rosto de seu ex-mentor.
- Você será recebido com grande pompa no Inferno, Loki.
- Você vai primeiro, querida. – o feiticeiro sorriu.
- A profecia dizia que você deveria morrer pela mão do seu
pai. Odin interrompeu isso.
- E eu, infelizmente, por ironia do Destino, acabei matando
papai... enquanto ele achava que eu o ajudaria com o plano de matar Odin. Creio que a profecia não funciona se Odin me
matar porque, tecnicamente, ele não é meu pai de fato.
- Não. Tem que ser o Laufey.
- Creio que Laufey esteja muito ocupado, morto, para vir
aqui cumprir qualquer compromisso adiado.
O ar tornou-se ainda mais frio e uma forma azulada, lenta e
terrível entrou no salão. Poucas coisas no Universo fariam Loki calar-se.
Aquela era uma delas.
- Pena que você não tinha força o bastante. O poder que
tirei de você me permitiu materializá-lo. – Explicou Karnilla - Ele não poderá
ficar muito tempo. Mas será tempo o suficiente para matá-lo... meu querido.
- Loki.... – a voz do rei morto ressoava dentro da cabeça do
feiticeiro.
- Isto é impossível. – Loki tentou soltar-se.
- Ódio e rancor tornam as coisas possíveis. Você me ensinou
isso. – O rosto de Laufey brilhava na escuridão.
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Sif havia ouvido sons há pouca distância da gruta e resolveu
investigar. Jane não a seguiu. Sem que a deusa se desse conta, Jane retrocedeu
para o fundo da caverna e descobriu uma outra passagem para fora.
-Eu vou me arrepender disso. – a moça correu para fora. A
roupa asgaardiana a protegia do frio enquanto ela corria pela neve, afundando e
escorregando a cada metro conquistado, seguindo uma direção bem definida
traçada em sua mente. – Aquele
desgraçado me transformou num GPS.
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A tempestade havia aquietado porque os seres que a haviam
invocado tentaram atrair os deuses para as escarpas do outro lado do vale onde
estavam naquele momento. Odin e os amigos de Thor combatiam os gigantes num
local perigoso, com formações de gelo afiadas como facas dispostas pelo chão.
Thor fulminava os inimigos e eliminava as armadilhas de gelo com os relâmpagos
atraídos pelo Mjolnir.
De repente ele viu Sif se juntar a eles na batalha, mas não
era com a deusa que ele estava preocupado.
- Onde está Jane?
- Não se preocupe! Deixei-a em segurança, na caverna perto
daquela montanha.
- Thor olhou para trás. Conhecia bem Jane Foster e ela não
ficaria parada naquele lugar, esperando a refrega terminar. E Loki deveria
estar brincando com a mente da jovem, atraindo-a para o Templo onde ia ser
sacrificado.
Os céus carregados abriram passagem para a nave branca dos
Vingadores, que se colocou entre os deuses e os gigantes, reforçando o ataque.
Thor foi atirado longe por um dragão de neve chamado pelos
gigantes. Quando caiu, viu a sombra de Jane Foster se afastando ao longe.
Nenhum dragão da neve foi morto tão barbaramente quanto aquele que interpôs
entre Thor e Jane. O Mjolnir atravessou
duas ou três vezes o crânio do animal, que agonizou durante alguns rápidos
instantes e desabou no chão. O sangue azulado congelou rápido ao redor do dragão.
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- Thor está se afastando. Deve estar indo em direção ao tal
Templo. Jarvis, o que você vê por aí, meu velho. Algum sinal de civilização?
- Existe uma vila perto daqui, Sr. Stark. É de uma civilização
nativa. Não tenho dados a respeito.
- Pessoal, a conversa está boa, mas eu estou a fim de fazer
turismo aqui na Terra do Gelo! Eu creio que Thor precisa de uma ajuda. E,
doutor Banner, eu acho que Loki ficaria extremamente feliz em ver um rosto amigo
lá no Templo. Será que o seu amigo Hulk não me acompanha na excursão?
- Preciso mesmo esticar as pernas! – O doutor tirou a camisa
e começou a sentir toda a agressividade do local da batalha.
- Eu vou descer também! Não agüento mais ficar preso aqui! –
o Gavião Arqueiro estava terminado de vestir o uniforme com dispositivo
térmico.
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Jane seguia em frente e lhe ocorreu que estava muito
exposta. Não havia vegetação, árvores ou qualquer coisa que pudesse servir-lhe
de abrigo. Não era a toa que a gente de lá estava em conflito com outros
mundos. Quem poderia ser feliz num mundo monocromático, sem outro som que não
fosse o silvo do vento?
Ela simplesmente não conseguia parar de caminhar. Enquanto sentia
exaustão por lutar contra o clima e o terreno ruim, sentia-se grata por ter
experimentado as ilusões de Loki, porque conseguia evitar as armadilhas de
gelo, as finas lâminas espalhadas pelo caminho. Era como se já conhecesse
Jottunheim.
- Por que estou me preocupando tanto com Loki? Ele colocou
algum encantamento em mim? Por que? Será
que ele quer que me sacrifiquem no lugar dele? Seria isso? Ou ele realmente não
planejou dessa forma.......- Jane falava alto para bloquear o barulho irritante
do vento.
Talvez a idéia inicial fosse apenas raptá-la e ter uma isca
para atrair Thor. No entanto... no entanto... Jane nem queria pensar nisso, mas
a verdade é que havia tido a experiência de sua vida dentro da mente dele e não
sabia por que, aquilo tudo a tornara mais forte. Ela estava caminhando naquele
lugar há horas e ainda estava viva!
Estava viva até aquele momento, o momento em que o que
parecia ser um rio, fluindo sinuosamente pela neve, veio em sua direção. Ela
tentou desviar-se, mas o rio a acompanhou. Na verdade não se tratava de um rio,
mas de um monstro gelatinoso, que se movimentava rapidamente, deslocando volumes
da massa que formava seu corpo como músculos que o impeliam para qualquer lado,
como uma serpente. O bicho se aproximou rápido de Jane, e com tremendo esforço,
saltou para cair sobre ela. Jane gritou e abaixou-se. Ouviu um estouro e sentiu
o ar quente de uma explosão jogar-lhe o cabelo para trás. Quase ficou surda.
Depois do barulho, ainda de olhos fechados, sentiu-se
envolvida num abraço que a colocou de pé.
- Jane? Está bem? Está bem? Desculpe! Não calculei direito onde
ia cair o raio!
Thor gritava acima do ruído do vento.
- Estou bem! Estou bem! – Jane balançava a cabeça,
tremendamente grata.
- Prá onde você vai?
- Loki está no templo!! É ali, naquela cidade.- Ela apontou
para o que ainda não via. Sabia que o lugar era aquele.
- Sim!! Vou levá-la de volta! Deixá-la num lugar seguro.
Resolverei isso sozinho!
Jane não conseguiu ouvir direito, mas leu os lábios dele.
- Não! Não! Não dá tempo!!! Eles vão matá-lo!!! Precisamos
salvá-lo agora!! – Jane puxou-o pelo braço.
- Pode ser uma armadilha dele, Jane! Você volta! Não vou
levá-la comigo.
- Eu não sei por que, mas eu preciso ir! Thor, por favor! Eu
preciso ir até lá!!
Enquanto os dois discutiam a questão, um grupo de gigantes
da neve se aproximou rapidamente e, com
um grito de guerra, caiu sobre o casal.
Continua.... by Ana Laufeyson
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