- Estou me sentindo zonza. – Jane respirou fundo. Não devia
nem existir uma atmosfera naquele mundo onírico. Não sabia ao certo se toda
aquela viagem era um estranho fenômeno envolvendo interdimensionalidade e
expansão da mente, ou se ela precisava procurar urgente um psiquiatra. Um
daqueles com bons contatos na indústria farmacêutica.
- Não se preocupe. Você não está habituada a isso e já faz
tempo que você está longe do seu corpo. Eu vou passar minha energia através de
você, para o seu físico. Vai sentir-se melhor...
Loki sentou-se diante
dela, de pernas cruzadas, pegou as mãos dela e apertou-as gentilmente. Estavam
frias e Jane parecia prestes a desmaiar.
- Não está na hora de você acordar. Ainda me deve uma
história, Jane.
A energia azulada e morna que se formou nas palmas das mãos
de Loki começou a percorrer o corpo dela, renovando suas forças. A moça ainda
se sentia levemente sonolenta e inclinou-se para frente. De modo suave ela começou a erguer o rosto.
- Eu - Eu era a esquisitona da escola... Uma CDF de marca
maior.
- CDF? Você fazia parte de algo como a Shield? – Loki
estreitou os olhos para ela.
- Hã? – Jane piscou. – Oh, não, não... CDF é como nós
chamamos aquelas pessoas que estudam demais. Que estão sempre metidas em livros
e não têm tempo para a vida social.
Jane olhou para baixo, para as suas mãos seguras pelas mãos
de Loki. Ele percebeu e acariciou as mãos dela. A moça desvencilhou-se e Loki
sorriu ainda mais.
- Meu pai era um físico. Trabalhava para o governo e por causa
disso eu ganhei bolsa, sabe....
- Não, não sei. – Loki ficava olhando para ela, muito sério.
- É quando você não precisa pagar para estudar.
- É preciso pagar para estudar? Vocês não têm sábios que ensinam os mais jovens?
- Há quanto tempo você não vai à Terra?
Loki deu de ombros.
- E o que aconteceu com seu pai?
Loki fez um gesto e o ambiente ao redor deles modificou-se.
Tratava-se agora de um luxuoso cômodo com amplas janelas, almofadas e tapetes
coloridos, tudo aquecido por uma lareira.
- Era meu quarto de estudos.
- Oh.... bem melhor que o meu. – Jane estremeceu.
Estava mesmo sentada diante do Loki que havia quase
devastado o mundo? Devia estar desenvolvendo síndrome de Estocolmo porque
estava contando passagens de sua vida para o sujeito que a estava usando para
tentar matar Thor!
- Você estava dizendo que seu pai era um físico.
- Viajávamos muito, não tínhamos parada. Minha mãe havia
morrido de câncer e ficamos só nós dois. E eu não tinha nenhum amigo. Creio que
você sabe como é isso...
- Temos muito em comum, não é? – Loki esticou-se e sentou-se
ao lado dela, falando mais baixo enquanto o ruído da lareira tomava todo o
local.
“Síndrome de Estocolmo, sem dúvida”, pensou Jane. “Por que
não estou entrando em pânico e me jogando contra as paredes para sair daqui?”
Havia qualquer coisa na presença do feiticeiro que a impedia de sentir-se mal.
Ela não tinha vontade nenhuma de se afastar. Provavelmente ela estava sendo
dopada. Algo do tipo.
-Estava no último ano do Colegial e alguns colegas me
convidaram para ir a uma festinha e eu pensei... por que não? Eles me
convidaram porque eu havia incluído aqueles idiotas num trabalho importante que
eu fiz sozinha e ...
- Ah! Talvez fosse interessante ver isso acontecendo!
- Não, Loki!
Novamente o cenário alterou-se e, de repente, Jane se via
diante do pai.
- Jane, eu vou precisar de você para checar esses cálculos.
Eu tenho certeza de que estou chegando a solução disso tudo... – O pai tinha um
olhar um tanto alucinado, de quem estava completamente absorvido pelo trabalho.
- Loki, por favor...
- Loki? O que é Loki, Jane? – Opai olhou para ela perplexo.
Jane piscou. Os olhos estavam cheios de lágrimas. Aquilo à
sua frente era só uma ilusão, mas parecia tão vivo. Ela não tinha outra alternativa
a não ser fazer o jogo de Loki novamente.
- Pai.... alguns amigos me convidaram para uma festa.
- Justamente hoje? Você podia ter me avisado antes.
- Eu avisei. Eu avisei, mas o senhor nunca me ouve. O Sr.
Não ouvia a mamãe. Não ouvia nem o Selvig que era seu melhor amigo.
- Não sei se aprovo isso filha. Preciso de você aqui hoje. É
uma experiência importante. – O Dr. Foster ficou sério. – Sabe quanto tempo da
minha vida foi gasto nisso? A bolsa para a sua faculdade será resultado deste
trabalho!
Jane soluçou e tentou reter o choro. Não conseguia falar e
ficou com o rosto vermelho.
- Não posso fazer isso, Loki. Eu já tive essa discussão com
meu pai... eu não vou falar aquilo de novo.
- Nem sempre os pais têm razão.
- Eu nunca havia me revoltado daquela forma. Era como se ele
fosse o culpado por todo o vazio existente na minha vida. Por todo o cansaço de
tentar compensar a falta da minha mãe me atirando nos estudos. Eu senti tanta
raiva dele pela distância que existia entre nós....
Loki a abraçou suavemente.
- Eu entendo. Profundamente.
- Ele não respondeu. Eu falei tantas coisas e elevei a voz,
gritei com ele... papai não falou nada. Retirou-se. Só isso. “Faça como quiser,
então”. Eu fui à droga da festa! E foi
horrível... eu me portei como uma idiota. A certa altura da noite eu fiquei
bêbada e todo mundo estava usando drogas porque os pais da patricinha que
estava dando a festa estavam viajando. Tomei um comprimido que me deixou
chapada metade da noite. Um idiota me
puxou para um canto e eu quase acabo a noite fazendo sexo com esse sujeito que
eu nem sabia o nome... – Jane começou a soluçar – O Selvig chegou. Foi me
procurar, porque o papai tinha tido um mal estar. Ele o levou ao hospital e
depois foi me buscar. E me achou completamente fora de órbita, vomitando num
sofá.... que ótimo. Não ouse fazer aparecer a historinha da minha vida com a
sua mágica! – Jane tentou se soltar do abraço de Loki.
- Seu pai morreu?
- Não naquela noite. Selvig não contou nada pro papai. Ele
voltou prá casa e não falamos mais nisso. Não falamos mais sobre nada. Ele
aumentou a distância entre nós durante um tempo. Depois, acho que me perdoou
por ter me “revoltado”. E daí eu fiquei cheia de culpa e decidi seguir seus
passos no estudo do universo multidimensional...
- Então era por isso que você rastreava o céu... era por
causa de seu pai. – Loki fixou seus olhos azuis na moça, com um sorriso
maravilhado. – E você acabou amando as estrelas, não é? Elas são tão
misteriosas e poderosas...
Jane sacudiu a cabeça afirmativamente.Era quase impossível
não se deixar impressionar por aqueles olhos.
Loki virou-a de frente para ele.
- A cada minuto descubro mais alguma coisa que gosto em
você. Se eu pudesse voltar o tempo, eu desceria à Terra no lugar do meu
irmão...
Jane balançou a cabeça, tentando arranjar forças para sair
do torpor que a invadia olhando para o rosto do feiticeiro.
- Pare com isso, Loki. Eu e Thor tivemos nossos momentos
porque vivemos uma experiência juntos... como você pode sentir algo por mim? Só
nos encontramos agora, neste seu sonho psicodélico! Você e Thor são criaturas
antigas... eu devo ser como uma criança aos seus olhos. Sou alguém comum! Por
que se interessaria por mim?
- Por que Thor se interessou? Você não sabe, Jane, mas tenho
observado você desde o momento que encontrou meu irmão. A princípio... por
curiosidade. Você é uma mulher cheia de encantos, e talvez seja a única mulher
em todos os mundos que pode me entender, que pode entender que eu posso ser
algo diferente. Vocês humanos, tão frágeis. É tão patético o modo como se
lançam desesperados à vida. Uma existência tão curta. Poderia gostar de mim,
como gosta do meu irmão?
- Você não é o Thor.
Loki segurou o rosto dela com as mãos e a prendeu com a
força dos seus puros olhos azuis.
- Nem eu sei quem eu sou. Esperava que você me dissesse... –
com uma carícia ele limpou as lágrimas dos olhos dela.
- Eu sou só uma humana. Simples mortal. Eu não tenho
respostas para você.
- Você é a resposta, Jane.
A doutora não tinha certeza de ter compreendido o que ele
queria dizer com aquilo.
- Loki, não vai poder me manter prá sempre aqui neste sonho.
Por favor, me liberte!
O asgaardiano sorriu de um modo franco para a moça.
- Eu poderia mantê-la aqui para sempre. O seu corpo físico
morreria, mas a sua essência seria minha, eternamente.
Jane sentiu muito medo de que ele estivesse falando sério.
- Contudo, fazer tamanha beleza cessar sua existência no
mundo é um pecado que nem mesmo eu não
gostaria de cometer. Você me fez entender que Thor provava seu amor obedecendo
a você! Eu poderia fazer isso também...
E mais: mandarei você de volta, Jane! E lhe darei as chaves do conhecimento que
você busca... mas tem que acreditar que faço isso porque eu a quero com o
desespero daqueles que são amaldiçoados e afastados de qualquer tipo de salvação.
Vou mandá-la de volta, Jane. Você está muito fraca e prometi que nada lhe
aconteceria...
- Vai mesmo me enviar de volta? – Jane não sabia ao certo o
que esperar dele.
Loki colocou suas mãos sobre as têmporas de Jane, que
estremeceu. Ele poderia fazer qualquer coisa agora: disparar raios para dentro
do seu cérebro ou transformá-la numa lhama. Ou cumprir a promessa. Jane
lembrou-se dos cenários tão belos que ele havia feito para ela. Talvez Loki
tivesse algo de bom dentro dele, afinal.
- Seria o que meu irmão faria, não é? – Loki sorriu
terrivelmente - Mas eu não sou Thor. É bom ter esperança, não é, Jane? Como é?
Que sentimento é a esperança? Eu não consegui captá-lo .... foi muito rápido.
Jane começou a respirar com dificuldade. Aquele homem ia levá-la a loucura. Ele só havia dito que ia
soltá-la para estudar sua reação.
- Por que me tortura assim? Eu não lhe fiz nada.
- Fez, querida Jane. Você fez. Quando Thor me trouxe à Ilha
do Silêncio, eu lhe ofereci o conhecimento de um atalho para seu mundo. Foi
assim que ele conseguiu resgatar o seu corpo, depois que eu a capturei. Mas em
troca, eu pedi que ele compartilhasse comigo as memórias que tinha de você. Não
apenas a sua imagem, mas o que você provocava nele. Eu já possuía um plano.
Este plano. Queria saber como você o afetava. Mas então, a consciência das
emoções que você provocava em Thor me fez ansiar por experimentá-las eu mesmo.
Apaixonei-me por você enquanto esperava usá-la apenas como ferramenta... e a paixão é a coisa mais assustadora que
alguém pode experimentar, eu posso dizer com certeza.
- E agora vai me reter aqui, prá sempre?
- Eu disse o que poderia fazer. E disse que não sou Thor. Eu sou melhor que
ele. Seu pai foi um homem honrado, Jane. Eu o vi no mundo dos espíritos... ele
a ama e se orgulha de você.
Jane sorriu, num misto de acesso nervoso e profunda
tristeza.
- Como posso saber se você está dizendo a verdade?
- Não pode.
Loki a beijou na testa, longa e amorosamente e depois baixou
o rosto em direção ao lábios da moça. Subitamente parou.
- Há uma presença na Ilha. Mas não é Thor.
Loki ficou lívido, como se tivesse sido atingido por uma
força terrível.
- Precisa ir! Há gigantes aqui. E procuram por mim! Há uma
Norne junto com eles.
- Norne?
- Karnilla!
- Quem é Karnilla? Loki, o que está havendo?
- Eu não contava com isso. – O feiticeiro parecia
legitimamente desesperado. E se algo assustava aquele homem, então Jane temia
pelo que poderia lhes acontecer.
- Eu prometi que nada lhe aconteceria. Você vê? Estou
cumprindo minha palavra. Adeus, Jane... leve-me em seu coração! – Loki pousou
seus dedos sobre a testa da moça, como se a abençoasse.
- Loki? O que eu faço? O que está acontecendo.
A última coisa que ficou gravada em sua mente foi a
expressão fria de Loki, com seus grandes olhos azuis a devorar sua consciência.
A cientista sentiu como se um raio cruzasse sua mente. A dor
foi tão violenta que ela desmaiou.
Asgaard
Jane acordou com um grito. Os curadores a cercaram e quase
foram atirados para o chão por um desesperado Thor.
- Jane? Você está bem?
-Vão matar Loki! – Ela teve que respirar profundamente
várias vezes. O coração batia acelerado. E ela sentia a necessidade de voltar
para o sonho intenso que tivera. Assustou-se ao ver Thor ao seu lado e ao
perceber que não estava na Terra. Voltou-se então para a única pessoa que
poderia ajudá-la.- Thor, precisa ir
salvá-lo!!
- Quem quer matar Loki? – Freya aproximou-se, preocupada.
- Não sei.... não sei... ele me disse... Karnilla.... e os
gigantes.
- Thor... eles vão sacrificá-lo. – Freya olhou para o filho
com grande preocupação.
- Seria merecido, não é?
- Thor, eu sei de tudo o que Loki fez, mas ele me salvou.
Ele me mandou de volta! Ele poderia ter me retido em sua mente! Por favor. Loki
ainda é seu irmão.
- Isto é um absurdo! Por que devemos salvá-lo? O que quer
que lhe aconteça será apenas a colheita do que ele plantou. Deixe-o para os
gigantes e para as Nornes. – Vociferou Sif, indignada com o fato de a mortal querer
que Thor se arriscasse para salvar o maldoso Loki.
- Vocês são deuses. Deveriam ter mais compaixão!
- Por que está tão desesperada por Loki? O que ele fez a
você? – Thor olhou com suspeita para a amada.
Jane calou-se. Nem ela entendia aquele desespero que sentia.
- A mortal tem razão. – Odin chamou Thor – Há uma razão para
eu não ter condenado seu irmão a morte. Se os gigantes o sacrificarem no templo
como contava a profecia daquele povo, eles revivirão Ymir, o primitivo monstro.
Ele destruirá os reinos e o tempo. Precisamos detê-los.
Antes que as luzes douradas de Asgaard se apagassem à noite,
Thor, Jane, seus três amigos e Lady Sif estavam a caminho da Ilha do Silêncio.
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